Em Abril comecei a cheirar aí umas tendências à espreita e publiquei o post Vira o disco, onde reza mais ou menos assim:
"(...) Acontece, exactamente, que a época que se segue ao Punk e pós-Punk obscuro e que reúne estas características é, exactamente, a gloriosa cena de Seattle. Por isso, sou capaz de apostar que o próximo hype, o próximo delírio colectivo à volta da imitação ou evocação de uma dada era, está relacionado com o imaginário grunge. Em boa verdade vos digo que se há-de voltar a ver gente vestida com camisas de flanela ao xadrez, calça de ganga coçada e rasgada, botas Doc Martens. (...)"
Em Outubro, estava a passar em frente à FNAC da Pl. Cataluña e apanhei o gratuito ADN, que confirma o que eu vaticinei.
Acontece que à reedição do Ten dos Pearl Jam já se seguiu a reedição do Bleach, o primeiro álbum dos Nirvana. As lojas de roupa começam a ter camisas ao xadrêz. As DocMartens voltaram às sapatarias. As séries de televisão, como a recente "novela" Gossip Girl, também já começam a espelhar este novo hype.
(Slinkman suspira fundo e começa a sentir nostalgia de movimentos originais que não são apenas baseados em dresscodes...)
José Pedro Leite, um desses raros poetas cujos sentidos são atravessados de palavras, volta a surpreender-nos com o seu novo livro, As Mãos e o Lume. Se em Outros Litorais os pássaros da contemplação voavam para fora de nós, mostrando-nos um mundo luminoso sintetizado em sensações, neste os mesmos pássaros voltam para nós em chamas, lembrando-nos da nossa condição carnal, desbravando o útero da nossa existência, das nossas angústias e temores.
Aqui, a luz que existe, quando existe, é a da chama da noite que convoca o desejo, o sangue tenso nas veias e os sexos na vertigem da entrega. E os despertares são mornos e raiados de cinza. O sol demora sempre, vago, lento, e quando surge, é nostálgico, remetendo-nos para a infância. A tempos, surge em todo o seu esplendor, mas é mais um sol de fogo que de luz. E o mar, sempre presente, é a líquida metáfora do sal do corpo.
Com prefácio de Miguel Ramalhete Gomes, dividido em três livros, As Mãos e o Lume, Antes da Água e Equilíbrio Solar, ganhou o Prémio Políbio Gomes dos Santos 2009, da Câmara Municipal de Ansião em parceria com a Associação Portuguesa de Escritores, e está disponível em edição de autor, para já, no espaço Era Uma Vez no Porto.
Depois de uns meses de interregno literário, eis-me de novo de volta ao Continente Europeu, prenhe de sons cabo-verdianos . Infelizmente, a capacidade editorial daquele belo país insular não lhe permite escoar para o mercado internacional. Até no mercado interno se torna difícil adquirir música. Os álbuns são caros e não se vendem em lado nenhum e eu ainda tive algum pejo em comprar música em escaparates de cafés e bombas de gasolina, um pouco à semelhança do que se faz por cá com o bom e velho Quim Barreiros. A única loja de música digna desse nome, encontrei-a fechada e com evidentes sinais de abandono, na capital Cidade da Praia. Portanto, vim de lá com dois CD's gravados e o desejo de voltar para retomar muito do que lá ficou. É, no mínimo, inquietante que, num país sem grandes recursos naturais e onde a Cultura podia e devia assumir o papel de principal produto de interesse turístico e de exportação, não haja grande dinâmica na divulgação e perpetuação dessa cultura. Obras literárias de referência da literatura de Cabo Verde estão esgotadíssimas nas livrarias e sem reedições à vista. Tudo o que se produz lá, e que nem é tão pouco quanto isso, fica mesmo por lá, à falta de uma visão estratégica de promoção cultural. Parecido com Portugal, mas numa escala ainda mais castradora. Pelo menos, o estrangeiro que cá venha, ainda pode sair daqui com uma bela panóplia de discos de boa música portuguesa debaixo do braço, desde que bem informado e orientado por alguém que perceba da poda. Teria sido uma viagem musicalmente quase infrutífera se não tivesse tido oportunidade de almoçar acompanhado por um conjunto de formação espontânea que pegou nas suas guitarras para animar o tasco, ou se não tivesse ouvido o primeiro mas promissor álbum da cantora Isa Pereira, o "Kriola Enkantu", que nos fala, em 11 músicas, das 10 ilhas do arquipélago e dos caboverdianos da Diáspora. Recomendadíssimo em termos artísticos, musicais e técnicos, é um álbum mágico, que nos prende a atenção quer pela sensibilidade da voz da Isa, que partilha a sua actividade de cantora com o secretariado ao Primeiro Ministro, quer pela qualidade da instrumentação, irrepreensível em termos melódicos, rítmicos e harmónicos. Poderia dizer que infelizmente só será possível ouvir esta pérola musical se o ilustre leitor se deslocar a Cabo Verde, mas não digo, pois vale bem a viagem!
Le Musicien anuncia, em primeira mão na blogosfera portuguesa, a morte de Michael Jackson. O ícone da pop sofreu uma paragem cardíaca esta tarde, dando entrada no Hospital da UCLA em Los Angeles, presumivelmente já cadáver.
O cantor, de 50 anos, sofria de vários problemas de saúde, mas tinha em mãos a preparação de uma nova digressão mundial, com bilhetes já vendidos para vários espectáculos.
Le Musicien lamenta o falecimento desta figura incontornável, que marcou a história da pop.
Em primeiro lugar, quero divulgar a apresentação na FNAC do Norteshopping do livro do meu caro amigo José Pedro F. Leite, dia 25, já na próxima Quinta-feira, na FNAC do Norteshopping às 22h00.
É uma excelente oportunidade de conversar com o José Pedro que, asseguro-vos, vale sempre a pena dada a sua cultura, sensibilidade e sentido de humor penetrante.
Em segundo lugar, é motivo de orgulho e regozijo para o autor deste Blog, verificar que as suas palavras chegam às multinacionais e estas as usam sem sequer pedir autorização. Do verificado pelo texto patente na agenda cultural da FNAC, há substância para afirmar peremptoriamente que fui plagiado.
"A segunda parte, Marégrafo, traz a nostalgia do mar, o cansaço das mãos e o despertar diário para a exaltação da vida."
Como me andava a fazer falta um espaço para descarregar os maus fígados e converter o mundo à Biologia da evolução do comportamento social humano, bem como demais vertentes literárias e pseudo-filosóficas, aqui vai o meu novo Belogue:
Num blog sobre música mas que se quer transversal a tudo quanto a música toca com os seus longos e etéreos braços, é altura para começar a falar também de literatura.
O José Pedro Leite é um homem com uma sensibilidade especial. A sua visão do que rodeia a existência quotidiana do cidadão comum, vem-nos em cheiros, sons, cores que apenas existem em sonhos, mesmo que nos enganem e digam que os sonhos são apenas a preto-e-branco.
Outros Litorais falam-nos disso. Falam-nos de mundos que estão por ser descobertos na simplicidade do motivo, na síntese da contemplação. Descobre-se, por fim, que tudo na palavra do bom amigo José Pedro é pássaro que levanta voo, para locais muito dentro de nós e muito além dos nossos horizontes.
O cinzel retórico do Zé lavrou duas partes neste seu debuto. A primeira em haiku, ora flutua pela espuma das ondas ora desce ao mais carnal dos carnais, sem perder o fio ténue do imediato. Fala-nos mesmo dos litorais, essas fronteiras entre terra e mar, o mesmo mar que há em nós e a mesma terra que há nos outros. A segunda parte, Marégrafo, traz a nostalgia do mar, o cansaço das mãos e o despertar diário para a exaltação da vida.
Queiram passar no "Era Uma Vez no Porto", onde os raros exemplares da edição de autor aguardam!
Fica aqui um excerto desta música do álbum de 1973, Brain Salad Surgery. Um bom e velho exercício de Prog com quase meia hora, dividido em três andamentos (1st, 2nd & 3rd impressions), em que o trio conta uma história passível de várias interpretações, com o confronto entre o novo e velho mundos, a moral e a depravação, o espectéculo do drama humano e a ameaça da inteligência artificial.
O vídeo é da segunda parte da primeira impressão, e demonstra o ritmo alucinante e a capacidade de criar inflexões que os ELP tinham.
"Welcome back my friends / to the show that never ends..."
E andamos nesta complexa relatividade temporal, em espirais de estilos e épocas no que toca à música. Nos últimos anos, temos visto grande parte da produção musical a seguir influências dos anos 80, principalmente de grupos com afinidade Punk e pós-Punk mas de sonoridades mais polidas. Assim, New Order, The Cure, Joy Division e muitos outros, têm sido plasmados em grupos recentes mas com um imaginário audio-visual que toca verticalmente a curva da espiral do tempo de há mais de 25 anos atrás.
Todos estes delírios de inspiração colectiva não ocorrem por acaso nem incidem sobre todas as eras passadas. Não se vê, profusamente, seguidores de estilos audiovisuais que caíram em desuso. Por exemplo, apesar do Disco Sound ter as suas hostes de apreciadores ainda hoje, passados 32 anos do seu auge, ninguém sai para a rua vestido à John Travolta no Saturday Night Fever, a não ser no Carnaval, e com a excepção do Disco Stu, sendo que este é um personagem dos Simpsons. O que se passa é que as épocas que têm uma associação com estados de espírito mais eufóricos que se reflectem em estilos de vestuário mais exuberantes na forma e na cor, e em estilos musicais mais sincopados e repetitivos, com recurso frequente a sintetizadores para fazer o trabalho todo, são épocas pouco imitáveis, pouco desejáveis. São estilos que não têm aquela atracção pela vertigem da melancolia, do perigo, da perdição. Pelo contrário, as eras do Sexo, Drogas e Rock'n'Roll, cheias de mitos, de suicidas, de gente desgarrada, de génios incompreendidos, de guitarras distorcidas, gritos lancinantes, ambientes misteriosos, são alturas da história extremamente atraentes pelo seu lado negro.
Acontece, exactamente, que a época que se segue ao Punk e pós-Punk obscuro e que reúne estas características é, exactamente, a gloriosa cena de Seattle. Por isso, sou capaz de apostar que o próximo hype, o próximo delírio colectivo à volta da imitação ou evocação de uma dada era, está relacionado com o imaginário grunge. Em boa verdade vos digo que se há-de voltar a ver gente vestida com camisas de flanela ao xadrez, calça de ganga coçada e rasgada, botas Doc Martens.
Talvez por causa de adivinharem o mesmo, ou apenas para comemorar o seu 20º aniversário, os Pearl Jam, banda que surgiu na cena de Seattle, dentro do universo grunge, mas que soube gerir como ninguém a sua carreira, muito graças à calma e clarividência do seu vocalista Eddie Vedder, começou a reeditar os seus álbuns em edições especiais. O primeiro é o clássico Ten, do fabuloso ano de 1991, que reviu a luz do dia no mês passado, em vários formatos normais e de luxo, com vinil à mistura. (A capa da imagem é a alternativa da edição de 2009). Claro que os Pearl Jam, sendo uma banda que, mais do que sobreviveu, prosperou num ambiente algo destrutivo, e seguiu sempre em frente lidando com as novas tendências e adaptando-se em conformidade, não é o exemplo perfeito da era grunge. Mas ainda temos os Nirvana, os Soundgarden, os Alice in Chains, just to name a few! De todos estes, os Nirvana atingiram o auge com o álbum Nevermind, o da conhecida capa do bebé a nada atrás da nota, em 1991. No mesmo glorioso ano em que saíu o Ten dos Pearl Jam, e que para mim foi um dos "anos de ouro" da música contemporânea. Senão, vejamos: os U2 baralham as cartas e voltam a dar, escandalizando os joshuatreeanos com o seu fantástico Achtung Baby; os gigantes Red Hot Chili Peppers, que ainda tocaram e foram tocados pela cena grunge, lançam o seu grande marco, o Blood Sugar Sex Magic.
Os Nirvana ajustam-se como uma luva a esta ideia do hype como um revivalismo de uma época atormentada, pois acabaram em 1994, com o seu vocalista Curt Cobain alegadamente a cometer suicídio. Deixaram vários álbuns dentro do mesmo sentimento de revolta e desespero, e um espectacular MTV Unplugged in New York.
Quanto a mim, só espero que o revivalismo, já que não se pode evitar, siga estas tendências que antevi. E, sendo ambicioso, espero também que sirva para "desenterrar" as velhas influências do grunge, como o Neil Young, os Pixies, os Led Zeppelin, os Black Sabbath e tantos outros. Isso sim, seria um bom hype, que podia ter o seu papel pedagógico, mostrando a muita gente que afinal havia vida mesmo antes dos anos 80.
Acabo, deixando um vídeo fantástico dos Red Hot Chili Peppers, que satiriza o passar do tempo dos estilos, mas que também homenageia de forma brilhante o Curt Cobain quando chega à era grunge.
Por um acaso do destino ou erro de marcação de preço, certo dia vi o Dark Side of the Moon dos Pink Floyd, edição em Super Audio CD (SACD), comemorativa dos 30 anos deste disco histórico, muito mais barata que a própria edição em CD. Comprei logo.
Há uns tempos, tropecei num artigo do JVH, onde ele afirmava que na última faixa, Eclipse, já no fading onde se ouvem os sons cardíacos, tocava por trás uma parte orquestral do Ticket to Ride, dos Beatles.
Confirma-se.
Este álbum foi masterizado em Abbey Road! Provavelmente, durante a remasterização deste álbum para o formato de SACD, tenham ido buscar alguma fita que os engenheiros de som, na altura, reaproveitaram de alguma sessão dos Beatles.
Não consigo compreender como é que isto escapou! Andam os remasterizadores surdos? (Sinceramente acho que sim, com tanta compressão e barulho em tanto bom disco). Ou então foi propositado.
Disse JVH, no seu proverbial sentido de humor, que deverá ter sido o fantasma de John Lennon a meter-se com os Floyd.
Obviamente que a mensagem de ontem era uma mentirinha de 1 de Abril.
O que eu estava a ouvir ontem, na verdade, era mesmo:
Bob Dylan - Bringing it all back home (1965). Este sim um excelente álbum de um unti-herói da música.
It's All Over Now, Baby Blue
You must leave now, take what you need, you think will last. But whatever you wish to keep, you better grab it fast. Yonder stands your orphan with his gun, Crying like a fire in the sun. Look out the saints are comin' through And it's all over now, Baby Blue.
The highway is for gamblers, better use your sense. Take what you have gathered from coincidence. The empty-handed painter from your streets Is drawing crazy patterns on your sheets. This sky, too, is folding under you And it's all over now, Baby Blue.
All your seasick sailors, they are rowing home. All your reindeer armies, are all going home. The lover who just walked out your door Has taken all his blankets from the floor. The carpet, too, is moving under you And it's all over now, Baby Blue.
Leave your stepping stones behind, something calls for you. Forget the dead you've left, they will not follow you. The vagabond who's rapping at your door Is standing in the clothes that you once wore. Strike another match, go start anew And it's all over now, Baby Blue.
E já agora, para outro desafio "vale um café" (mas nun sítio barato, nada de Majestic, a menos que a companhia seja mesmo agradável), qual o nome do grupo que mais temas do Dylan interpretou na sua discografia?
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